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domingo, 25 de maio de 2014
SEMPRE NÃO
Um cavaleiro, casado com uma dama nobre e formosa, teve de ir fazer uma longa jornada: receando acontecesse algum caso desagradável enquanto estivesse ausente, fez com que a mulher lhe prometesse que enquanto ele estivesse fora de casa diria a tudo: – Não.
Assim pensava o cavaleiro que resguardaria o seu castelo do atrevimento dos pajens ou de qualquer aventureiro que por ali passasse.
O cavaleiro já havia muito que se demorava na corte, e a mulher aborrecida na solidão do castelo não tinha outra distracção senão passar as tardes a olhar para longe, da torre do miradouro.
Um dia passou um cavaleiro, todo galante, e cumprimentou a dama: ela fez-lhe a sua mesura.
O cavaleiro viu-a tão formosa, que sentiu logo ali uma grande paixão, e disse:
– Senhora de toda a formosura! Consentis que descanse esta noite no vosso solar?
Ela respondeu:
– Não!
O cavaleiro ficou um pouco admirado da secura daquele não, e continuou:
– Pois quereis que seja comido dos lobos ao atravessar a serra?
Ela respondeu:
– Não.
Mais pasmado ficou o cavaleiro com aquela mudança, e insistiu:
– E quereis que vá cair nas mãos dos salteadores ao passar pela floresta?
Ela respondeu:
– Não.
Começou o cavaleiro a compreender que aquele Não seria talvez sermão encomendado, e virou as suas perguntas:
– Então fechais-me o vosso castelo?
Ela respondeu:
– Não.
– Recusais que pernoite aqui?
– Não.
Diante destas respostas o cavaleiro entrou no castelo e foi conversar com a dama e a tudo o que ele lhe dizia ela foi sempre respondendo
– Não.
Quando no fim do serão se despediam para se recolherem aos seus quartos, disse o cavaleiro:
– Consentis que eu fique longe de vós?
Ela respondeu:
– Não.
– E que me retire do vosso quarto?
– Não.
O cavaleiro partiu, e chegou à corte, onde estavam muitos fidalgos conversando ao braseiro, e contando as suas aventuras. Coube a vez ao que tinha chegado, e contou a história do Não; mas quando ia já a contar a maneira como se metera na cama da castelã, o marido já sem ter mão em si, perguntou agoniado:
– Mas onde foi isso cavaleiro?
O outro percebeu a aflição do marido e continuou sereno:
– Ora quando ia eu a entrar para o quarto da dama, tropeço no tapete, sinto um grande solavanco, e acordo! Fiquei desesperado por se me interromper um sonho tão lindo.
O marido respirou aliviado, mas de todas as histórias foi aquela a mais estimada.
Corre corre cabacinha....
Era uma vez uma velhinha que vivia só, na sua casinha da aldeia. Certo dia, recebeu uma carta da sua neta, que vivia numa terra distante. A carta trazia-lhe uma grande alegria – a neta ia casar-se e convidava a avozinha para assistir ao seu casamento.
Tão contente ficou que imediatamente se pôs a caminho para não chegar atrasada. Depois de ter andado alguns quilómetros, surgiu à sua frente um grande lobo que lhe disse numa voz rouca:
--Ai, velhinha, que eu como-te!
-Ai, não me comas, que eu estou muito magrinha.
Vou ao casamento da minha neta e, quando de lá voltar, já venho mais gordinha!
-Está bem na volta cá te espero! - respondeu o lobo e deixou-a seguir caminho.
Lá mais adiante, surgiu-lhe na frente um urso, que, pousando-lhe as patas nos ombros, lhe disse ao ouvido:
-Ai, velhinha, que eu como-te!
-Ai, não me comas, que eu estou muito magrinha. Vou ao casamento da minha neta e, quando de lá voltar, já venho mais gordinha!
-Ai, velhinha, que eu como-te!
-Ai, não me comas, que eu estou muito magrinha. Vou ao casamento da minha neta e, quando de lá voltar, já venho mais gordinha!
Tal como o lobo, o urso achou que a velhinha tinha razão e deixou-a seguir viagem, dizendo:
-Está bem na volta cá te espero!
-Está bem na volta cá te espero!
Já quase no fim da viagem, uma terceira fera apareceu à velhinha – era um leão.
-Ai, velhinha, que eu como-te!
-Ai, não me comas, que eu estou muito magrinha. Vou ao casamento da minha neta e, quando de lá voltar, já venho mais gordinha!
O leão também achou que era melhor esperar que ela voltasse mais gordinha. Então disse-lhe:
-Está bem na volta cá te espero!
Muito assustada a velhinha continuou o seu caminho até que chegou, por fim a casa da neta. Contou tudo o que lhe acontecera e a neta acalmou-a dizendo que não haveria problema nenhum.
O casamento foi muito bonito e a velhinha estava muito feliz. Mas, quando se decidiu a voltar para a sua casa, começou a ficar com muito medo. A neta correu ao quintal, cortou a cabaça maior e mais redondinha que lá tinha abriu-lhe uma pequena porta e a velhinha entrou nela.
A neta voltou a fechar a cabaça. Então a viagem começou quando a cabaça e a velhinha rebolavam estrada fora . A certa altura passaram ao pé do leão, que perguntou:
- Oh cabacinha não viste para aí uma velhinha?
A velhinha de dentro da cabacinha respondeu:
-Não vi velhinha, nem velhão Corre corre cabacinha Corre corre cabação!!!
O leão fez cara de admirado! A cabacinha continuou rebolando pela estrada fora. Um pouco mais à frente estava o urso, esperando. Este resolveu perguntar:
-Oh cabacinha não viste para aí uma velhinha? De dentro da cabacinha, a mesma voz respondeu:
-Não vi velhinha, nem velhão Corre corre cabacinha Corre corre cabação!!! A cabacinha continuou rebolando, rebolando, sempre a toda a pressa.
O urso não percebeu nada do que via e ouvia… Mais perto de casa estava o lobo esfomeado. Ao ver a cabacinha perguntou-lhe:
-Oh cabacinha não viste para aí uma velhinha? De dentro da cabacinha a voz da velhinha fez-se ouvir:
-Não vi velhinha, nem velhão Corre corre cabacinha Corre corre cabação!!!
O lobo pulou de raiva. Finalmente a nossa velhinha chegou a casa. Não havia mais perigos. Pela estrada fora tinham ficado, enganados, os seus três inimigos. A cabacinha salvara-lhe a vida.
http://elavemhistoria.blogspot.pt/2007/04/corre-corre-cabacinha.htmlsexta-feira, 4 de abril de 2014
O TOURO AZUL
Era uma vez um rei e uma rainha, os quais tinham cada um, uma
filha. Como ambos eram viúvos, resolveram casar-se, e assim fizeram.
A filha do rei era muito formosa, muito bonita
e boa para toda a gente do reino. Ao contrário, a filha da madrasta era muito feia,
muito desajeitada e muito malcriada para com toda a gente do palácio. Ninguém gostava
dela. Entregava-se o rei muito ao
exercício da caça, e enquanto por lá andava, era a sua filha que o representava,
sendo por isso o ídolo dos habitantes do reino.
A madrasta ardia de ciúmes por esta
preferência e jurou por sua alma vingar-se da filha do marido. Nesse intento,
numa ocasião em que o marido teve de se ausentar , ordenou a madrasta à enteada
que fosse guardar um touro azul, que o pai desta comprara e que era muito
bravo.
A boa menina, toda transida de medo,
cumpria as ordens da madrasta, recebendo desta uma pequena merenda para comer todo
o dia. Contra a sua expectativa o touro não só não a maltratou, mas até a
olhava serenamente. No dia seguinte, voltou a menina, e quando se dirigiu para
o touro, este ajoelhou-se diante dela e disse-lhe:
-“
Tira o guardanapo , que tenho por detrás da orelha, e estende-o no chão que
logo te aparecerá comida e bebida consoante a tua condição.”
A princesa fez o que o touro lhe
ordenou, e logo viu na sua presença os melhores manjares. Satisfeito o apetite,
tornou a colocar o guardanapo atrás da
orelha do touro, que em seguida, se retirou, cortejando-a. E assim, se passaram
alguns dias. A rainha admirada que o
touro não atentasse contra a enteada e de que esta parecesse viver satisfeita,
ordenou a um pagem que espreitasse a enteada. Em breve, este se certificou de
toda a verdade e a comunicou à rainha.
Entretanto, voltou o rei da caça, e a
rainha fingiu-se doente, de cama. Ficou o rei muito aflito e mandou chamar os
médicos, que declararam achar-se a rainha muito enferma. A rainha fingiu grande
fastio, mas como instassem com ela para que comesse, resolveu pedir um caldo da
carne do touro azul.
Ficou a filha do rei muito magoada com
aquela exigência, e antes que o pai mandasse matar o touro azul, foi ela
preveni-lo.
Pela calada da noite, dirigiu-se à tapada
onde logo viu o touro azul.
-“Já
sei a que vens aqui: a rainha quer matar-me. Vem comigo, senão ela dá cabo de
ti.”
– disse o touro azul
E ambos fugiram. Depois de terem andado
toda a noite e todo o dia seguinte, disse o touro:
-
“Agora vamos entrar nesse jardim, onde há muitas flores de cobre. È guardado por
um gigante com quem brigarei, e como ele é muito forte, talvez me mate. Tu
repara se cai alguma flor.”
Apesar das súplicas da princesa, o touro
encaminhou-se para o jardim. Logo aos primeiros passos viu a menina cair uma
flor.
-“
Guarda-a no teu avental:” – disse-lhe o touro.
E a princesa assim fez. Quase ao mesmo
tempo, apareceu o gigante e começou a lutar com o touro. Este ficou vencedor,
mas muito ferido.
-“ Tira
um frasquinho, que o gigante aí morto tem à cintura, e deita-me sobre as
feridas o óleo nele contido.”- disse o touro
A menina cumpriu a ordem, e o touro
ficou completamente sarado.
Mais adiante, chegaram a outro jardim em
que as pétalas das flores eram de prata. Nele também havia um gigante, que foi
morto pelo touro, sendo as feridas que ele recebera, curadas com o licor
contido no frasquinho que pendia da cinta do gigante. Aqui, também caiu uma
pétala de prata que a menina recolheu no seu avental..
Mais adiante, apareceu outro jardim em
que as pétalas eram de ouro. De guarda estava um formidável gigante que trazia
à cinta um frasco e uma faca de mato. Lutou o gigante com o touro e este matou
o gigante.
Então disse o touro à princesa: -“ Deita-me nas feridas o líquido do frasco
e guarda a faca de mato.”
A menina assim fez. Mais adiante
pararam, e disse-lhe o touro: - “ Que vês
acolá?”
-“ Vejo
uma ribeira e lá no cimo do monte uma casa” – respondeu a menina
O touro azul disse-lhe: - “A casa que vês é um palácio; aí vive uma
rainha com o seu filho. Agora farás o seguinte: com a faca que trazes tira-me a
pele, guarda nela as três pétalas que apanhaste, e vai meter tudo debaixo
daquela lage ali ( aponta-lha), a qual
às três pancadas, se levantará. Depois suja-te na ribeira e vai-te oferecer como criada àquele palácio.
Quando ouvires dizer que há aqui perto alguma festa, faze-te parva e pede que
te deixem lá ir. Debaixo da lage encontrarás o que desejares para te vestires.”
Bem contra a sua vontade, a menina fez o
que o touro lhe ordenou. Foi enfim a princesa suja e com os cabelo em
desalinho, oferecer-se por criada ao palácio, dando-se o nome de Maria.
Foi recebida por criada. Daí a dias,
pediu o príncipe um pente. Foi a criada levar-lho. Ele atirou fora o pente
dizendo:
-“Já
não tinham por quem mandar o pente, senão pela Maria Suja!...”
Passado tempo, realizou-se naqueles
arredores uma festa. À custa de muitos pedidos, deixaram ir a criada à festa. A
criada dirigiu-se à lage e logo, diante dela, surgiu uma carruagem de cobre e
juntamente uma vestimenta completa do mesmo metal. Maria dirigiu-se na
carruagem às festas, onde deu nas vistas de todos, sem excepção do príncipe,
seu amo, que lhe perguntou de onde era.
-“
Da terra dos pentes!” – respondeu-lhe a Maria
De outra vez, mandaram pela mesma criada
ao príncipe uma toalha que ele pedira para se limpar. O príncipe recusou a
toalha dizendo:
-“
Não quero toalhas da Maria Suja!”
Daí a poucos dias, houve outras festas
às quais a criada Maria, seguindo os processos indicados, se apresentou em
carruagem de prata e vestida do mesmo metal.
-
“ De onde é? – perguntou o príncipe
-“
Da terra das toalhas.” – respondeu a Maria
Numa outra ocasião, o príncipe pediu um
copo e foi a Maria levar-lho. Este , muito enojado por ver que quem lhe trazia
o copo era a Maria Suja, disse que não o queria.
Dias depois, houve outra festa a que
Maria assistiu vestida de ouro, em carruagem do mesmo metal e toda coberta de
jóias de grande valor.
O príncipe, com os seus ares mais
namorados e respeitosos, perguntou-lhe de onde era.
“Sou
da Terra dos copos “– respondeu a Maria e começou a fugir
da festa
Desta vez o príncipe não ficou calado nem
pasmado. Correu atrás dela e conseguiu apanhar-lhe o sapato que ela tinha
deixado cair, levou-o para o palácio, como uma relíquia preciosa.
Convocou todas as princesas daqueles arredores,
resolvendo casar com aquela a quem o sapato servisse. Entre as diversas
princesas apareceu a filha da madrasta de Maria Suja . Ela calçou o sapato e
disse que lhe ficava bem, embora a magoasse a ponto de lhe rasgar a pele do pé,
deixando-o todo ensanguentado.
Como o sapato lhe servia, foi logo ali
marcado o casamento. Sucedeu porém, haver no palácio uma pega, que foi a razão
de se descobrir o engano. Com efeito, quando os dois noivos estavam já dentro
da igreja, entrou a pega na igreja dizendo: “
– Olha como ela vai toda inchada com o sapato que pertence à Maria Suja!”
Parou imediatamente a cerimónia e o
príncipe tratou de se certificar se o que a pega dissera, era verdade. Todos verificaram que o sapato
não servia àquela princesa, que agora o calçava. Chamaram a Maria Suja e verificaram que ela o calçava muito bem,
pois era dela o sapato. Em visto de tudo isto, o príncipe casou com a Maria
Suja, pois que o príncipe era nem mais nem menos que o touro azul.
FIM
Revista A Tradição Setembro 1901(texto adaptado)
quarta-feira, 12 de março de 2014
AS TÚNICAS DE URTIGA
Numa terra muito distante, havia um
rei bondoso e sábio, que tinha uma linda filha, chamada Lúcia e onze filhos,
todos belos e inteligentes. O soberano, que já estava velho e cansado, amava
ternamente sua esposa e seus filhos.
Infelizmente, a rainha morreu, e o rei, sentindo-se
triste e solitário, resolveu casar-se com a viúva de seu primo, que tinha sido
o soberano de um país vizinho.
A felicidade, que até então reinava no palácio,
desapareceu. A nova rainha, que era uma feiticeira perversa, conseguiu dominar
o velho rei. A primeira coisa que ela fêz foi afastar Lúcia do palácio,
mandando-a para a casa de uns lenhadores, que moravam numa floresta longínqua.
Quanto aos onze príncipes, tantas mentiras a bruxa
pregou a seu respeito, que o rei acabou não os querendo mais ver. Então, a
feiticeira resolveu encantar os meninos. Depois de fazer uma porção de gestos mágicos, disse para os príncipes:
Voai, ligeiros, longe de nós, Jazei-vos
aves, aves sem voz!
Os meninos transformaram-se em cisnes brancos e saíram
voando pelo céu afora. Eles deviam seguir para um lugar determinado pela bruxa.
Durante a viagem, procuraram passar sobre a casinha da floresta, onde estava a
irmãzinha. Mas já anoitecia. Por isso, embora tivessem batido as asas com
força, não conseguiram acordá-la.
Quando Lúcia completou quinze anos, teve permissão para
ir ao palácio. Assim que a rainha a viu, ficou louca de inveja e de raiva. A
menina era de uma beleza deslumbrante. A bruxa quis transformá-la logo em
cisne, e só não o fez porque o rei desejava vê-la. Resolveu esperar uma ocasião
mais oportuna para lhe fazer mal.
Lúcia costumava nadar no lago que havia junto ao
palácio. Um dia, antes de ela chegar ao lago, para lá se dirigiu a rainha,
levando consigo três sapos horríveis.
Na margem do lago, atirou o primeiro sapo na água,
dizendo: Quando Lúcia estiver nadando,
salta na sua cabeça, para fazê-la tão estúpida como tu!
Quando atirou o segundo, berrou: Salta no rosto de Lúcia, para fazê-la tão feia como tu!
E, quando atirou o terceiro, rosnou: — Fica perto do coração de Lúcia, para que
se torne perversa e má!
Os sapos fizeram tudo o que a rainha ordenou. Quando a
moça saiu do lago, mais parecia um bicho que um ser humano. Ao vê-la, o rei
ficou horrorizado. E mandou que ela voltasse para a floresta.
É bom lembrar que Lúcia ficou muito feia, mas não se
tornou má. O sapo não conseguiu modificar seu coração bondoso. Tendo sido
desprezada pelo seu pai, a jovem resolveu sair à procura dos seus queridos
irmãos.
Viajou dias e dias, atravessando montes, vales e cidades. Durante a viagem, encontrou, numa floresta, uma velha
faminta que lhe pediu um pedaço de pão. Lúcia deu-lhe pão, com prazer, e ainda
foi apanhar, no riacho, um pouco de água para matar a sede da velhinha.
Esta, que era Nossa Senhora disfarçada, mandou que
Lúcia comesse uma frutinha silvestre que crescia à beira do ribeiro. A moça
obedeceu e, no mesmo instante, desencantou-se, voltando à sua beleza natural.
Lúcia continuou a viagem. No meio do caminho,
encontrou um velhinho a quem deu o seu último pedaço de pão. Perguntou-lhe,
então, se tinha visto onze príncipes tão belos como o sol. O velho respondeu: — Que
coincidência! Não vi os onze príncipes. Mas vi onze cisnes belíssimos, cada
qual com uma coroa na cabeça!
E mostrou o lugar onde vira as lindas aves. A princesa
seguiu para lá, sentou-se e ficou à espera o dia inteiro. Quando o sol começou
a desaparecer no horizonte, a moça ouviu um rufiar de asas. Olhou para o céu e
viu surgir onze cisnes voando apressadamente. Pousaram na terra e esconderam-se
sob uma moita. Lúcia aproximou-se e ficou vigiando.
Quando os últimos raios do sol desapareceram, as penas
dos onze cisnes caíram por terra e eles transformaram-se em belos príncipes. Lúcia
correu para eles, radiante de alegria. Reconheceram logo a irmã e cobriram-na
de beijos e abraços. Que contentamento! Que felicidade!
A moça contou-lhes a sua triste história e eles narraram como tinham sido encantados pela
cruel feiticeira. E o príncipe mais velho explicou: — Durante o dia, temos a forma de cisnes. Mas, logo que o sol
desaparece, voltamos a ser homens. E por isso que temos sempre o cuidado de
chegar à terra firme antes que anoiteça, pois, se estivéssemos voando nos ares,
cairíamos de repente e morreríamos.
— Onde moram vocês? - perguntou Lúcia.
— Num lugar muito
distante daqui, além dos mares. A viagem para lá é muito longa. Voamos dois
dias sobre o oceano. No meio do caminho, só existe um rochedo isolado entre as
ondas. É tão pequeno que nele só há espaço para ficarmos de pé, apertados uns
contra outros. Quando o mar está agitado, cobre-nos de espuma da cabeça aos
pés. Contudo, damos graças a Deus por termos aquele pequeno rochedo.
— Quantas vezes,
por ano, podem vir até aqui ? - indagou a princesa.
— Somente uma vez.
E só podemos demorar-nos onze dias. Chegamos há dez dias. Assim só temos um dia
para ficar contigo.
A princesa e os irmãos ficaram a conversar durante
muito tempo. Depois, vencida pelo cansaço, a moça adormeceu. Quando acordou,
ouviu um forte bater de asas. Eram os irmãos que tinham voltado à forma de
cisnes e que deviam passar o dia a voar.
Quando a tarde caiu, os cisnes voltaram e, assim que o
sol desapareceu, retomaram a forma humana. Então, o mais velho dos irmãos disse
para Lúcia:
— Já que te encontrámos,
não queremos perder-te. Vamos passar a noite fazendo uma rede para podermos levar-te
connosco.
E começaram logo a trabalhar. Apanharam uma porção de
ramos e folhas para construírem uma rede resistente e macia. Pouco antes de romper o dia,
o trabalho estava terminado.
Lúcia sentou-se na rede que foi elevada no ar pelo
bico dos onze cisnes. Durante todo o dia, os pássaros voaram sem parar. Já
estavam exaustos de carregar a rede, mas não desanimavam. A moça tremia só em
pensar que poderia anoitecer, sem que chegassem ao rochedo perdido no meio do
oceano. Mas, finalmente, quando os raios do sol começaram a desaparecer, a
pequenina rocha surgiu no horizonte.
Quando a noite chegou com o seu manto de estrelas, a
moça e os onze cisnes pousaram no rochedo. Os príncipes retomaram a forma
humana. Tiveram de ficar estreitamente unidos para não caírem no mar. Assim que
o sol nasceu os rapazes viraram, novamente, cisnes e bateram as asas, levando
pelos ares a jovem princesa.
Após viajarem o dia inteiro, chegaram, finalmente, ao
seu destino. Os irmãos viviam num penhasco, em frente ao mar, onde havia uma
caverna, que era a sua morada. Dentro da caverna, que era muito limpa, viam-se
camas de musgo bem arrumadas. Lúcia ficou ali com os irmãos que, nesse momento,
acabavam de voltar à forma humana.
Depois de conversar longas horas com os príncipes,
Lúcia resolveu descansar. Mas, antes de dormir, rezou, pedindo a Nossa Senhora
que lhe ensinasse, em sonho, uma maneira de quebrar o encanto de seus irmãos.
Quando adormeceu, Nossa Senhora apareceu-lhe em sonho
e disse-lhe:
— Poderás quebrar o
encanto de teus irmãos. Mas, para isso, é preciso muita fé e perseverança.
Existe perto deste penhasco, bem como nos cemitérios, uma urtiga que tem
propriedades maravilhosas. Quando a apanhares, ficarás com as mãos inchadas e
empoladas. Deves colher grande quantidade dessa planta e, com ela, tecerás onze
túnicas. Quando estiverem prontas, atira-as sobre teus irmãos e, então, o seu
encanto ficará quebrado. Voltarão, para sempre, à forma humana. Mas, para que
tenhas êxito, é necessário que, enquanto estiveres tecendo as túnicas, não
digas uma só palavra. Durante esse tempo, qualquer som que saia de tua boca
ferirá como se fossem onze punhais cravados no coração de teus irmãos.
Quando Lúcia acordou, caiu de joelhos, agradecendo a
Nossa Senhora o conselho que lhe dera. Depois, saiu da caverna e deu início ao
seu trabalho. Começou a arrancar as folhas de urtiga que nasciam perto do
penhasco. Quando o sol se pôs, voltaram os seus irmãos e perguntaram-lhe o que
estava fazendo. Nem uma palavra de resposta. Os príncipes ficaram muito
tristes, acreditando que a mudez da irmã era mais uma feitiçaria da madrasta.
Mas, quando viram as mãos feridas e o trabalho que ela executava, sem parar,
perceberam que fazia aquilo para quebrar o seu encanto. O príncipe mais moço
pôs-se a chorar, beijando as mãos da irmã. E onde caíam suas lágrimas,
desapareciam as empolas e as feridas.
De repente, ouviu-se o som de uma trompa de caça. Era
o soberano daquele reino que caçava nas proximidades da caverna. Ao ver Lúcia,
ficou deslumbrado com a sua beleza. E
resolveu levá-la para o palácio real.
Lá chegando, a princesa retirou-se para o rico
aposento que lhe haviam oferecido. Havia trazido consigo o molho de urtigas e,
por isso, continuou a trabalhar, febrilmente, durante a noite. Havia de
libertar os seus irmãos!
Alguns dias depois, o rei não pôde resistir à
paixão que o dominava
e pediu a moça em casamento. Lúcia que estava enamorada do jovem soberano
aceitou o pedido, mas não pôde dizer uma palavra. Sabia que, se o
fizesse, causaria a morte dos seus onze irmãos.
Realizou-se o casamento com grande pompa. O rei
supunha que a sua linda esposa fosse muda e por isso redobrava em seus carinhos
para com a moça. Tinha pena da sua triste situação. E Lúcia cada
vez amava mais o rei e lamentava não lhe poder contar a sua triste história.
A moça já tinha tecido várias túnicas, quando lhe
faltou urtiga. Sabia que só podia encontrá-la no cemitério e, numa noite de
luar, para lá se dirigiu.
Mas houve alguém que a viu sair do palácio e a seguiu.
Era um fidalgo que odiava a rainha, pois pretendia ver a filha no trono. Por
isso, quando viu a rainha entrar no cemitério, foi avisar ao rei, dizendo-lhe
que a rainha talvez fosse uma feiticeira. O soberano ficou muito triste e
resolveu vigiar a esposa.
Dias depois, tendo faltado, de novo, a urtiga, Lúcia
tornou a ir ao cemitério. Mas desta vez, foi seguida pelo rei e outras pessoas.
Viram-na aproximar-se de um túmulo, onde algumas aves de rapina estavam a devorar
um cadáver. O rei não quis ver mais,
julgando que a sua esposa era também uma bruxa repugnante.
Como não podia falar, Lúcia não pôde defender-se e,
por isso, foi condenada a morrer na fogueira. Quando os onze príncipes souberam
disso, já era véspera da morte da irmã. Correram ao palácio para falar ao rei.
Os guardas disseram que não podiam acordar Sua Majestade. Os rapazes
insistiram, suplicaram, ameaçaram e já se dispunham a lutar com a guarda real,
quando romperam os primeiros raios de sol. Os príncipes desapareceram, e viu-se
um bando de cisnes esvoaçando, desesperadamente, por cima das torres do
palácio.
Chegou a hora da execução de Lúcia. A multidão enchia
a praça principal da cidade. Daí a pouco, surgiu a moça numa velha carroça.
Estava pálida e abatida, mas os seus dedos trabalhavam sem cessar. Já tinha, ao
seu lado, dez túnicas prontas. Só faltava uma!
O carrasco quis jogar fora as túnicas, mas a moça
olhou para ele com um ar tão suplicante que o homem não pôde recusar-lhe o
último favor. A multidão, porém, cobriu-a de injúrias e avançou para despedaçar
as túnicas.
Nesse momento, surgiram, fazendo grande barulho, onze
cisnes lindíssimos, que começaram a dar bicadas terríveis nas pessoas que
queriam atacar a carroça. Enquanto isso, a moça não parava de trabalhar.
Finalmente, ficou pronta a última túnica.
Na ocasião em que o carrasco ia atirar Lúcia na
fogueira, os onze cisnes aproximaram-se
para se despedir da irmã. Ela jogou, então, sobre eles as túnicas de urtiga. No
mesmo instante, transformaram-se em onze príncipes de uma beleza deslumbrante.
Estava quebrado e encanto!
— Agora já posso falar.
Estou inocente! - exclamou
a moça. E contou ao rei, que estava presente na praça, a sua triste história.
A pena de morte foi logo revogada. O rei ficou louco
de alegria e cobriu a esposa de beijos e abraços. Houve muitas festas no reino.
E a todas assistiram os onze príncipes, que passaram a morar no palácio, junto
da sua querida irmã.
Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda
Santos, Cia Ed. Nacional
TERROXOXÔ
Era uma
mulher casada e dizia a toda a gente que o marido gostava muito dela e que se
ela morresse o marido não casava com outra.
E uma
vizinha dizia-lhe que não, mas a mulher não se convencia.
A mulher estava
tão convencida do que dizia que a vizinha, já farta da conversa , um dia
disse-lhe:
- Olhe, vossemecê finja-se morta e depois há-de ver!!!...
E assim foi. O marido veio para casa e encontrou a mulher morta.
E a vizinha veio logo a correr e disse ao homem que não lhe desse fezes que ela arranjava tudo. E puseram a mulher no meio da casa e a vizinha disse-lhe assim:
- Olhe vizinho, eu não posso cá passar a noite, mas mando para cá a minha filha para lhe fazer companhia para o vizinho não ficar só.
E fez uma cama para a filha ao pé da cama dele.
- Olhe, vossemecê finja-se morta e depois há-de ver!!!...
E assim foi. O marido veio para casa e encontrou a mulher morta.
E a vizinha veio logo a correr e disse ao homem que não lhe desse fezes que ela arranjava tudo. E puseram a mulher no meio da casa e a vizinha disse-lhe assim:
- Olhe vizinho, eu não posso cá passar a noite, mas mando para cá a minha filha para lhe fazer companhia para o vizinho não ficar só.
E fez uma cama para a filha ao pé da cama dele.
E o homem
foi-se deitar primeiro e a vizinha mandou a mulher dele deitar-se na cama que
era para a filha e por isso, o homem julgava que era a filha da vizinha quem
estava deitada ao lado da sua cama
A mulher, pela noite adiante, deu-lhe vontade de fazer xixi e pôs-se a urinar no bacio e ele então dizia-lhe assim:
A mulher, pela noite adiante, deu-lhe vontade de fazer xixi e pôs-se a urinar no bacio e ele então dizia-lhe assim:
- Ai minha alma, meu serafim
Que até no mijar fazes terlintintim;
Que a outra que o diabo levou
Quando mijava fazia terroxoxô.
A mulher acendeu a luz e deu-se a conhecer e só assim é que ela ficou sabendo o que os homens são!!
e bendito louvado está o conto
acabado.
terça-feira, 11 de março de 2014
O REINO DO LIMO VERDE
Era
uma vez uma velha ambiciosa que
tinha três filhas, cada qual mais feia. Perto da casa da velha, morava uma moça
muito bonita que, apesar de pobre, andava com lindos vestidos e ricas jóias.
Desconfiando de tanta riqueza, a velha visitava, frequentemente, a casa da moça
para ver se descobria alguma coisa. Mas, por mais que procurasse, nada
conseguia saber.
Resolveu então a sua
filha mais velha tentar descobrir o segredo. Dirigiu-se à casa da moça e,
depois de muitos rodeios, pediu-lhe para passar a noite em sua casa. A moça
consentiu, mas, quando foi na hora de dormir, pôs no café da vizinha um remédio
muito forte, que a fez dormir a noite toda, sem nada ver ou ouvir.
Enquanto ela dormia,
bateu na janela da moça um belo papagaio. A moça abriu a janela, e a ave entrou
no seu quarto, onde já estava preparada uma bacia com água. O papagaio tomou um
banho, sacudindo as penas. Cada pingo que caía fora da bacia era um lindo
diamante, que a moça recolhia e guardava. Quando o papagaio acabou de se
banhar, transformou-se num belo príncipe. Depois de passar a noite com a sua
noiva, o príncipe, logo que clareou o dia, transformou-se no papagaio e voou
para longe.
A filha da velha, que
nada vira, voltou para casa dizendo que era mentira o que se dizia da moça. Mas
a velha, desconfiada, mandou a outra filha para passar a noite na casa da
vizinha. Aconteceu então a mesma coisa: ela tomou café com remédio e roncou a
noite toda.
Diante disso, a velha,
sempre desconfiada, mandou a sua filha mais nova. Esta, que era muito esperta,
quando lhe foi dado o café, fingiu que ia bebê-lo e entornou-o para um lenço
que levava escondido. Deitou-se na cama e fingiu que estava a dormir. Pôde,
assim, ver o que aconteceu durante a noite. Quando amanheceu, correu para casa
e contou tudo à sua mãe.
A velha ficou cheia de
inveja e, assim que anoiteceu, colocou no peitoril da janela da vizinha, uma
porção de cacos de vidro e pedaços de navalha. Quando o papagaio chegou e foi
passar pela janela ficou ferido, com o sangue a escorrer. A moça, espantada,
correu para cuidar do papagaio, mas este, batendo as asas, exclamou:
— Ah! ingrata! Estou perdido! Nunca mais me verás, a não ser
que mandes fazer uma roupa de bronze e andes com ela até ao Reino do Limo
Verde, onde moro!
Dizendo isso, bateu asas
e desapareceu no céu.
A moça ficou muito triste
e compreendeu o motivo das visitas das filhas da velha. Mas não desanimou.
Mandou fazer uma roupa de bronze, vestiu-a e saiu pelo mundo à procura do Reino
do Limo Verde.
Depois de dois anos de
viagem, chegou ao reino da Lua e perguntou a esta se lhe poderia dar notícias
do Reino do Limo Verde. A Lua respondeu que nunca ouvira falar nesse reino, mas
que talvez o Sol soubesse alguma coisa a esse respeito. A moça despediu-se e,
na saída, a Lua deu-lhe de presente uma almofada de fazer rendas, com bilros e
alfinetes de ouro.
A moça seguiu viagem e,
depois de andar dois anos, chegou à casa do Sol. Este disse também que jamais
ouvira falar no Reino do Limo Verde. Mas que talvez o Vento Grande pudesse dar
alguma informação sobre ele. A moça despediu-se e, na saída, o Sol deu-lhe de
presente uma galinha com pintos, todos de ouro, vivos.
A moça viajou mais dois
anos e, afinal, chegou à casa do Vento Grande. Este ouviu o que ela disse e respondeu:
— Conheço o Reino do Limo Verde. Ainda ontem passei por lá.
A rapariga então suplicou
ao Vento que a levasse até lá. O Vento Grande lhe respondeu: — Amanhã sobes comigo, e quando encontrares uma
árvore muito grande e com uma grande copa, na frente de um palácio muito rico,
seguras-te nos galhos, que é ali.
No dia seguinte, lá foi a
moça montada no Vento Grande. Ao avistar a árvore, agarrou-se à mesma e desceu.
E ficou, em baixo, imaginando o que havia de fazer para entrar no palácio e ver
o príncipe.
Nesse momento, chegaram
três rolinhas, pousaram na árvore e começaram a conversar.
Disse uma delas: — Não sabem? O príncipe do Limo Verde está
para morrer.
A segunda perguntou: — O que será bom para ele?
E a terceira respondeu: —
As feridas que ele tem no peito não saram
mais; só se nos pegarem, tirarem os nossos corações, torrarem, moerem e
deitarem o pó nas feridas.
A moça, que ouvira toda a
conversa, armou um laço e apanhou as três rolinhas. Tirou-lhes os corações,
torrou-os e fez um pozinho que guardou cuidadosamente. Em seguida partiu à
procura do príncipe.
Fez tudo para entrar no
palácio, mas não conseguiu. Então, tirou a almofada de ouro que a Lua lhe havia
dado, e começou a fazer renda. Daí a pouco, veio passando uma criada do palácio
que ficou maravilhada com a beleza da almofada. Foi contar o que vira à rainha
e esta mandou perguntar à moça quanto queria pela almofada. E a moça respondeu:
— Darei de presente a almofada, se me
deixarem dormir no quarto do príncipe.
A rainha ficou ofendida e
quis mandar prender a moça, mas a criada disse-lhe: —
Ora, minha senhora, o príncipe está tão doente que não conhece mais ninguém.
Que mal faz que aquela tola durma no chão de seu quarto ?
A rainha, então,
consentiu e ficou com a almofada de ouro.
A moça foi dormir no
quarto do príncipe e logo na primeira noite lavou-lhe as feridas e pôs nelas o
pó das rolinhas. Mas, desta vez, o rapaz não a reconheceu.
No dia seguinte, a moça
foi, novamente, para debaixo da árvore e soltou a galinha e os pintos de ouro.
Passou a criada e ficou admirada com o que viu. Foi correndo contar à rainha.
Mandou esta perguntar quanto custava a galinha e os pintos. A moça respondeu
que daria de graça aquelas preciosidades se a deixassem dormir duas noites no
quarto do príncipe.
A rainha, a princípio,
não queria deixar, mas, a conselho da criada, acabou consentindo. Na segunda
noite, o príncipe melhorou muito e, na terceira, ficou completamente bom e
reconheceu a moça. Abraçou-a, ternamente, e pediu-a em casamento.
E claro que a moça
aceitou. Então, o príncipe apresentou-a aos seus pais como sua noiva. Dias
depois, realizou-se o casamento com grande pompa. Houve muitas festas, não só
no palácio, como em todo o Reino do Limo Verde.
Texto adapatdo
Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda
Santos, Cia Ed. Nacional
http://www.consciencia.org/o-principe-encantado-fabulas-infantis-maravilhosas
A MOURA TORTA
Era uma vez um príncipe que tendo chegado à idade de se casar, não encontrou nenhuma
moça que lhe agradasse. O seu pai, que já estava muito velho, vivia muito
triste por não ter o seu filho encontrado uma princesa para esposa. Receava
morrer, deixando o filho solteiro. Como poderia ele governar o seu reino sem
uma rainha e sem herdeiros ?
Aconselhou então o príncipe a visitar
outros países. Talvez ele encontrasse, fora do reino, uma princesa capaz de lhe
inspirar amor. O jovem aceitou o conselho do seu velho pai e, para não ser
reconhecido, partiu vestido modestamente. Depois de muitos dias de viagem,
quando se achava próximo de uma cidade, encontrou uma velhinha corcunda,
carregando um feixe de lenha. O príncipe ficou com pena da pobre velha e
ofereceu-se para carregar a lenha. Quando chegou à cidade, deu à velhinha uma
bolsa cheia de moedas. A velha agradeceu a bondade do rapaz, abençoou-o e
disse:
— Meu filho, não sei como retribuir o que
fez por mim. Só tenho estas laranjas para lhe oferecer. Mas, quando as quiser comer,
só as descasque perto de um lugar onde haja água corrente.
O príncipe guardou as laranjas e seguiu
viagem. Depois de muito caminhar sob um sol abrasador, sentiu sede. Não
encontrando água no caminho, lembrou-se das laranjas da velha. Tirou uma do alforge
e começou a descascá-la. De repente, a laranja partiu-se ao meio e dela saltou
uma linda moça, gritando: — Quero água!
Quero água!
O rapaz ficou extasiado com a beleza da
moça, mas como não houvesse naquele lugar uma gota de água, ela imediatamente
desapareceu.
O príncipe ficou muito triste com o facto
e seguiu viagem. Dias depois, atravessava ele um grande deserto, quando sentiu
uma violenta sede. Lembrou-se, mais uma vez, das laranjas e, quando descascava
uma, saltou do seu interior uma jovem, ainda mais bela do que a primeira,
pedindo água pelo amor de Deus. O príncipe saiu correndo à procura de água, mas
não conseguiu sequer uma gota. Quando voltou ao lugar, a linda moça havia
desaparecido, sem deixar nenhum vestígio.
O príncipe ficou muito triste , mas
prosseguiu a sua viagem. Depois de percorrer vários países, sem encontrar uma
princesa que lhe agradasse, resolveu regressar ao seu reino. Quando se
encontrava próximo do palácio do seu pai, sentiu uma sede irresistível.
Resolveu comer a última laranja, mas, lembrando-se do que acontecera antes,
andou, andou até encontrar um rio. Quando chegou às margens deste, parou e
descascou a terceira laranja. Dela saltou uma jovem mais formosa do que as
outras, pedindo um pouco de água. O príncipe correu e trouxe do rio um copo de água,
que ofereceu à linda moça. Esta matou a sede e ficou desencantada. Por isso,
não desapareceu.
Contou a sua história ao príncipe. Era
filha de um rei muito rico, e havia sido transformada numa laranja pela sua
madrasta, que era feiticeira. O príncipe ficou apaixonado pela moça. Pediu-a em
casamento e ela aceitou. Resolveu então apresentá-la ao pai. Mas como a moça
estivesse muito mal vestida, achou conveniente ir sozinho ao palácio buscar
roupas bonitas e uma carruagem para sua noiva. Disse à princesa que subisse a
uma árvore, que ficava na margem do rio, recomendando-lhe que não falasse com
ninguém, durante a sua ausência. Feito isso seguiu, a toda pressa, para o
palácio.
Mal o príncipe saiu, chegou à beira do rio
uma negra muito feia, cega de um olho, a quem chamavam a Moura Torta. A negra
abaixou-se para encher o pote no rio. Nisto, avistou o belo rosto da moça reflectido
no espelho das águas. Ficou admirada de tanta formosura. Julgando que era o seu
próprio rosto, exclamou:
— Ora essa! Uma moça tão bonita como eu, carregando água! Isto não pode
ser! E atirou o pote contra as pedras, reduzindo-o a cacos. Depois disso,
afastou-se toda orgulhosa, da beira do rio. Quando chegou a casa, disse à
patroa que o pote tinha escorregado da sua mão e caído ao rio.
A patroa ficou aborrecida com a história,
mas deu-lhe outro pote e mandou-a de volta ao rio. Quando a negra mergulhou o
pote na água e viu novamente o rosto da moça, reflectido no rio, ficou outra
vez convencida da própria beleza. Atirou o pote para longe e voltou para casa,
inchada de orgulho. A rapariga escondida na árvore, ao ver a "pose"
da Moura Torta, quase soltou uma gargalhada, mas conseguiu reprimir o riso e
ficou à espera do noivo, que já estava tardando.
A patroa, quando viu a negra sem o pote,
ficou furiosa. E ameaçou dar-lhe com ochicote, se ela voltasse para casa sem
água. A Moura Torta, muito sucumbida, tomou de novo o caminho do rio, levando,
desta vez, um caldeirão de ferro. Quando se abaixou para tirar água e viu, mais
uma vez, a imagem da moça, ficou desesperada. Agarrou o caldeirão de ferro, que
a patroa lhe havia dado, e começou a bater com ele nas pedras.
A princesa ao ver a cena, não se pôde
conter e soltou uma boa gargalhada. A Moura Torta, espantada, olhou para cima e
viu a moça na árvore. Compreendeu logo o que havia acontecido e disse:
— Ah! é você, minha pombinha? Que está fazendo aí nessa árvore?
A moça contou que estava à espera do
príncipe, seu noivo. Diante disso, a negra subiu até onde estava a princesa e
começou a conversar com a mesma. Elogiou os lindos cabelos da moça e pediu
licença para penteá-los. A princesa, sem nada desconfiar, atendeu ao seu
pedido. Quando a Moura Torta, que era feiticeira, pôs a mão na cabeleira
dourada da moça, aproveitou um momento de distracção desta e enterrou na sua cabeça
um alfinete mágico. Imediatamente a princesa se transformou numa pomba branca,
que saiu voando pelo espaço.
A Moura Torta tomou então o lugar da jovem
e ficou à espera do príncipe. Quando este chegou, numa carruagem lindíssima,
trazendo ricos vestidos para a noiva, ficou desapontado ao encontrar, no seu
lugar, uma negra feia e zarolha. A Moura Torta disse-lhe que tinha ficado assim
devido ao sol que lhe queimara a pele e aos espinhos da árvore que lhe haviam
furado olho.
O príncipe ficou muito acabrunhado, mas,
como havia dado a sua palavra, levou a preta para o palácio. O rei quase morreu
de desgosto quando conheceu a sua futura nora, mas ficou calado para não
aborrecer o seu querido filho.
Começaram então os preparativos para o
casamento. O príncipe enviou convites para todos os reis e príncipes dos países
vizinhos. E a Moura Torta mandou fazer os mais belos vestidos e as mais ricas
jóias. Mas quando os experimentava, ficava ainda mais feia e ridícula. Ninguém
suportava a presença da horrível rapariga.
O jardineiro do rei estava a colher flores
para o casamento, quando viu uma pombinha branca pousar numa roseira e dizer:
Hortelão, hortelão da real horta:
Como vai o rei com a sua Moura Torta?
O jardineiro contou o caso ao rei e este
ao príncipe. O rapaz ficou intrigado com o acontecimento. Resolveu vestir a
roupa do jardineiro e observar a pombinha.
No dia seguinte, à mesma hora, apareceu,
de novo, a pombinha, que pousou num galho de roseira e exclamou:
Hortelão, Hortelão da real horta:
Como vai o rei com a sua Moura Torta?
O príncipe respondeu:
Come bem, dorme bem.
Passa a vida regalada.
Tão
feliz e sossegado,
Como no mundo ninguém!
E acrescentou: — Põe o teu pezinho aqui, minha pomba.
E a pomba respondeu: — Não, que o meu pé não foi feito para laço
de barbante.
Dizendo isto, a pombinha bateu asas e
fugiu.
O príncipe preparou então um laço de ouro.
Também falhou. Preparou um laço de diamante. Desta vez, a pombinha deixou-se
prender. O príncipe levou-a para o palácio e tratou-a com muito carinho.
A Moura Torta, vendo a pomba, nela reconheceu
a princesa encantada. Disse ao príncipe que lhe desse a pombinha, pois desejava
comê-la. O rapaz ficou com muita pena, mas não teve remédio senão atender ao
pedido da noiva. Antes, porém, de entregar a linda ave, resolveu fazer-lhe um
último carinho e passou a mão pela sua cabeça. Notou, com surpresa, que nela
existia um pequeno caroço. . . Puxando-o, tirou o alfinete mágico. No mesmo
instante, a pomba transformou-se na bela princesa que ele havia deixado na
árvore.
O príncipe ficou radiante de alegria e ouviu
da princesa a sua triste história. Ficou então sabendo da malvadeza da Moura
Torta. A notícia espalhou-se pela cidade. O povo ficou tão indignado que correu
ao palácio, tirou de lá a bruxa e queimou-a na praça pública. Depois, lançou as suas cinzas ao rio. O
príncipe casou-se com a linda princesa. E o velho rei pôde então morrer, tranquilo
e feliz, abençoando o filho, que o sucedeu no trono.
Fonte
: Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional
Conto
adapatdo
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